MUSA - Museu Sagarana
Textos » O Médico Dr.João Guimarães Rosa

O Médico Dr.João Guimarães Rosa

 

Por Adagmar Lima de Freitas

 

       Aqui, outrora, foi CONQUISTA. E até Dores de Conquista. Terra dedicada a Nossa Senhora das Dores. Mas quando ele chegou, sorriso solto e esperançoso, já era ITAGUARA. Lugarejo pacato, de gente acolhedora. Rio Pará maleitoso. Às margens, fazendas desabitadas. Povoados desprovidos de tudo. Só a capela, sinal de Vida e de Fé. Lavradores lavrando a terra, lançando sementes e sonhos. E os homens outros daqui e de fora naquela labuta de rasgar a estrada de rodagem Belo Horizonte - São Paulo.

       Viera recomendado pelo Dr. Alisson de Abreu ao farmacêutico Ary de Lima Coutinho, seu primo. Nasceu amizade estendida a toda a família e, em especial, ao Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho, residente em Itaúna.

       Por que não montara uma clínica na Capital? Não lhe faltaram propostas mirabolantes. Preferiu o interior de Minas Gerais com suas mazelas e sofreres.

       O jovem médico, recém-formado, e cheio de ideias trouxe a esposa-menina. Juntos o início de vida nova. Difícil o despir do luxo, do conforto da cidade grande. Em Itaguara, nem luz havia. Casinha branca simplesinha, com escadaria de pedra, na Rua Direita. Do italiano Virgílio Brugnara. Ali, o lar e o consultório. Lygia, a esposa, incentivando o Dr. João naqueles primeiros anos de medicina. Para perpetuar os laços afetivos, Vilma, a filha, nasceu itaguarense.

       Dr. João deixou rastros nos caminhos da roça. Marcas nas ruas descalças. Amigos, cartas, receitas, afilhados. E lembranças doces, doces!... Praticou a interiorização da medicina. Nessas andanças, os olhos/ouvidos do futuro escritor se abriram para o cenário e personagens dos sertões mineiros. Em SAGARANA há muito do nosso chão, da gente nossa.

       Durante dois anos aqui viveu clinicando. Se assistia uma parturiente, chegava às lágrimas ao sentir a criança naquela luta para se desprender do corpo materno. Com ela nos braços, sua emoção era tanta que pedia para ser padrinho. Feliz, festejava o milagre da Vida.

     E o primeiro menino que ele ajudou a vir ao mundo foi Fábio, filho de Adelaide e Gentil Lima. Não sei se seu primeiro afilhado. Tudo indica que sim. Depois ele assistiu Neném do Didico no nascimento de Celita, também sua afilhada. Anésio Rodrigues e outros itaguarenses que deram mais trabalho ao nascer, tiveram-no como médico. Nessas horas as parteiras entregavam os pontos.

     Certa vez, foi à Boa Vista atender a Zizica do João Ribeiro, às voltas com o sofrimento do parto. Viagem custosa, a cavalo, chuva e mais chuva que Deus mandava. Voltou depois de deixar o nenezinho Ribeiro todo refestelado no canto da mãe. Chegou ao arraial? Pois Sim! Teve de pernoitar no Dorico do Barreiro.

       Era comum galopar pelas estradinhas, à noite, para atender algum enfermo. Tinha pressa. Socorro urgente. Durante o dia, a viagem de volta era diferente. Tempo de sobra para vivências e descobertas. E ainda ir quebrando cabeça na aprendizagem de línguas estrangeiras.

     Dedicando-se efetivamente à medicina, mesmo assim, sentia-se impotente, quando não encontrava meios de curar ou, pelo menos, aliviar dores. Dificultosos os exames, os diagnósticos e até os medicamentos. Ficava arrasado diante de certas doenças como a lepra. Que fazer?! Em paga de sua dedicação, recebia aves e ovos, doces e queijos... e um dinheirinho vez ou outra. Quando não sorrisos e lágrimas. Em um “Deus lhe pague, doutor!”.

     A moçada também adoecia. De uma feita, Genésio Baeta, Landinho Vilela e João Batista, acometidos do mesmo mal, procuraram o Dr. João. Ele os examinou meticulosamente. Fez o receituário. Na hora do acerto, olhou para os jovens e disse:

     ─Dinheiro vocês não têm. Pensam que essa vai ser de graça? Cada um vai me dar o que pode. Do Genésio quero uma armação de cadeira de pano. Do Ladinho, uma cama. E do João, por ser fazendeiro, quero um leitão. Combinados?

     E por falar em Genésio, homem medroso estava ali. Nem da casa da namorada saía sozinho à noite. Dr. João interessou-se pelo seu caso. Com sua psicologia nata começou a orientá-lo. Pena que partiu deixando o cliente meio-lá-meio-cá.

     Foi médico de Chico Hilário. Visitava-o com frequência para ver como ia-lhe o coração. Aproveitava para apreciar sua rica colmeia. Lá permanecia examinando as caixas em ebulição. Observava curioso o trabalho das abelhas. Em tudo para ele havia encantos e mistérios

     Era amigo dos curandeiros e raizeiros. Valorizava lhes o trabalho, principalmente o desempenho do Bite e do Manoel Carvalho. Como ele, tinham seus clientes, serviam a comunidade. Orientava-os e os incentivava, quando solicitado. Mais tarde, alguns médicos até reclamavam do alcance desses especialistas. Tornou-se mais próximo de Manoel Carvalho devido à sua maior intelectualidade. A prova disso é a correspondência mantida com fórmulas e orientações. Amigos e colegas, o médico e o itaguarense amante dos livros e da arte de curar.

       Corria o ano de 1932. Dr. JOÃO GUIMARÃES ROSA deixa Itaguara. Vai para Barbacena. Objetivo: participar da Revolução Constitucionalista, atuando como médico voluntário da Força Pública. Em vão os itaguarenses esperaram sua volta.

     É que o MÉDICO transformou-se em EMBAIXADOR e, mais tarde, em consagrado ESCRITOR. E partiu mundo afora em busca de novas CONQUISTAS.