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Seu Marrinha

Por Adagmar Lima de Freitas

 

      Pois é, Seu Marra! Essa estrada de rodagem Belo Horizonte - São Paulo deu tora. Suor, calos, poeira... Exigiu coragem. Mas que era divertido lá isso era. Havia os Lalinos da vida só pra embromar serviço e pessoal. Eta mulatinho gaiato, contador de vantagem! Tinha desculpas pra tudo, um afrouxo qualquer. E a companheirada boa debaixo de sol ou de chuva.
     Valeu a pena! Se valeu! ... Virar personagem do livro SAGARANA─ uma glória! Quem diria, meu Deus, o menino José, criado ali nos Coelhos, corre- correndo o mundo inteiro na pena do grande GUIMARÃES ROSA!
     A década de trinta abria as portas. Marrinha e três irmãos decidiram trabalhar na construção da estrada. Muitos operários sob chefia do Sr. Paschoal Torquette.
     Seus auxiliares- administradores: José Marques e Waldemar dos Santos. A Empresa A.R.
Geanette e Almeida Magalhães pegara a empreitada do trecho de Bonfim- Rio Pará, das 6 às 17 horas aquela labuta de enxadão, pá e picareta descendo barranco... Sumiam na poeira, no desconforto. E os carroções no iam-cheios-voltavam-vazios.
       JOSÉ BENJAMIM MARRA passou a feitor de uma turma de quinze pessoas. Ali, no batente, fiscalizando: registra o ponto, distribui tarefas, põe ordem no trabalho, incentiva os mais frouxos. À margem da estrada, a barraca de capim. Jeitosa, acolhedora. No fogão a lenha a fartura e a gostosura... Bóia da Fiúta, manjar dos deuses. Cheirinho de alho ─ hora do reforço. Pratos nas mãos, os trabalhadores no aprecio da comida fiutana. Torresmo e mandioca, abobrinha e angu, arroz e feijão. Pausa pro pessoal que ninguém e de ferro.
     A fim de abastecer a cozinha, o armazém sortido da Companhia punha presença. Tudo de que precisavam. Hoje aqui, amanhã ali, seguindo as turmas. Ninguém podia reclamar, podia?
     À tarde, solzinho se pondo, desafogo geral. Violão em punho, sanfona brejeira e modinhas saudosas. Mas cadê Seu Marrinha? Nessa hora, ele arreava o burrinho Estrela e...até amanhã! Vinha para o arraial. Todo lampeiro pelos caminhos. Dormia no bem- bom de sua cama. De manhãzinha, ei- lo chegando refeito - satisfeito.
     E aos poucos a estradinha foi desenhando retas e curvas, pontes e mata-burros, bueiros ... Belo Horizonte e São Paulo, agora, ligados diretamente. Hora de colocar os blocos de cimento com a quilometragem. (À porta da Casa Paroquial ainda há um marcando E.E.KM 130).
     Agora, com o asfalto, (sairá ?) os sinais vão se apagando. A Ponte dos Desastres, lá nos Coelhos, agoniza. Vira- e- mexe estão lá medindo, pondo estaquinhas, ensaiando fazer e acontecer. E a estradinha velha pretende virar rodovia.
     Mas Seu Marra atuou em outras frentes. Foi delegado de comprovada competência. Mesmo antes do cargo oficial, prendeu o assassino no Nhô Toniquinho. Vejam se deixar o homem fugir. Chegou na hora H. Deu-lhe voz de prisão com ordem do delegado. O criminoso calçava as botinas... O bolso cheio de apólices do Estado, razão do crime. O velhaco comprara as ditas (20 a 30% do pagamento do pessoal da estrada era em apólices) e não queria pagar por elas. Sapecou dois tiros no pobre do Nhô. Seu Marra agiu sem titubear ─ para o xilindró!
     Do Major Antônio Luiz recebeu o “fitão” de subdelegado. E passou a enfrentar tudo que fosse ingresia. As pendengas do inventário acabando em tiros, as proezas dos jovens, a lengalenga dos pinguços, os ladrões de galinhas... Pouca coisa ficou de suas façanhas. Velhos esquecidos, os nossos.
       Na praça, o circo- de- cavalinhos pronto para função. O povo se reunindo prazenteiro. Luz fraca, fraquinha. Música, animação. Chegavam da pescaria os homens. Mesmo cansados resolveram animar mais a praça. Com tochas- foguetes acesas nas mãos: chuva de prata – maravilha das maravilhas! O pessoal assustado com aquele clarão. Foi um corre-corre dos diabos. Veio Seu Marrinha com a soldadesca. O chefe foi durante advertido. O cabo aguentou as pontas. No dia seguinte, Seu marra passou aquele sabão nos pescadores que acharam por bem encerrar a carreira de fogueteiros.
       Ele apreciava teatro. E atuava como artista. Sua turma: Genésio, Zebinho, José Rosa, Elpídio, Dodô, Uriel, Zizi, Tonho, Oscar, Tita, Nhá, Nhanhá, e outros mais. Sebastião do Couto, o ponto. Teatro com o padrão itaguarense de qualidade . Ou seria conquistano? Numa das peças Seu Marrinha, como advogado, arrasou! Na encenação de “Gaspar Serralheiro “dizia forte:
   ─ “ Eu, Jacinto Valeriano da Silva , ter medo é coisa que nunca tive medo.”
       Do seu casamento com Bié ainda se fala. Festão no Morro Grande. Convidados a cavalo. Cada qual mais elegante. Quitanda de tudo que era tipo. Os noivos naquela felicidade. Abençoados pelo Pe. Gregório.
       Bié, companheira fiel. Deu-lhe cinco filhos bonitos e sadios . Sempre aceitando suas variadas profissões e se adaptando a elas. Ora o marido delegado em Itaguara, ora o comerciante em Piedade. Ainda o hotel, a selaria... Ela presente e atuante.
       No início, a sapataria . Como auxiliar o Elpídio Rosa (mais tarde Pe.Elpídio). Bater sola─ profissão de muitos itaguarenses . Ali se faziam sapatos ou os consertavam naquela folia de juventude.
     Comerciante famoso em Piedade dos Gerais. Loja sortida, freguesia boa . E o negócio prosperando. Entra- e- sai. De tudo Seu Marra vendia. Comerciava café. Fabricava manteiga . O produto ia para Belo Vale em lombo de burro. Deu para cansar. Também a saudade... voltou.
       Lá fez nome. Além do comércio, participou da polícia local. Piedade vivia isolada. Ele conseguiu a construção da estrada Bonfim- Piedade, um trecho de 21 km.
       Em Sabará, a “Pensão Nova” instaladinha na Rua Clark , 45. Tempero itaguarense na terra de Borba Gato. D. Bié caprichando na cozinha. Seu Marra, nas relações públicas.
       Não sei não. Eles iam e sempre voltavam. Piedade e Sabará ficavam para trás. Aqui sempre um recomeçar esperançoso. Alugam o sobrado do Alcides Ferreira (hoje prefeitura) e abrem o Itaguara Hotel”. Viajantes chegando e saindo. Comida boa- boa! Nas muitas janelas caras curiosas espiam a Rua Direita se espreguiçando. Professoras acolhidas como filhas.
     No porão a selaria. Dario transformando em arreios e acessórios o couro curtido dos animais. E assobia soturnamente as músicas que toca no harmônio da igreja. Seu Marra olhos/ouvidos atentos aos movimentos/sons. Dario, meu tio, músico, filósofo, seleiro de profissão.
     Fiscal de obras da prefeitura . Lembranças dos tempos da estrada. No comando da turmas, ajeitando os caminhos das roças, abrindo ruas na cidade, construindo isso e aquilo. Vistoriando─ vistoriava e bem.
     Vovô Joaquim Marra da Silva, desistiu de ser padre. Do Seminário de Roma trouxe vasta bagagem cultural. Dedicou- se à Medicina. “Médico” dos ricos e dos pobres. Acode aqui, acode ali . Fazia partos , e até operações . O neto tinha lá seus pendores pela homeopatia. E assistia com dedicação. Letrado como poucos naqueles tempos. Lia muito. Gostava de prosear com pessoas inteligentes . E a amizade com Guimarães Rosa só o fazia crescer. Juntos saíam pelas roças a cavalo, trocando ideias. O futuro escritor colhendo dados, fixando cenários e personagens para seus livros. Seu Marra, um deles!
       Já mais velho, transfere-se com a família para Belo Horizonte. No Bairro 1° de Maio , a casa aberta aos parentes e amigos. Itaguara no coração. Comércio, venda de bebidas . Idade chegando pé ante pé, com os achaques. Ele se abatendo . até que um dia ... SEU MARRINHA ENCANTOU-SE.