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Fragmento - Discurso de Mário Palmério

Sucedeu Guimarães Rosa, na Academia Brasileira de Letras – cadeira nº 02

22 de novembro de 1968

(...)

Senhor Presidente, Senhores Acadêmicos:

 

 Careço de tudo — da queda à aptidão - para aventurar-me à análise, ainda que por alto, da psique e da arte de um mestre do porte de João Guimarães Rosa. Posso, quando muito, manifestar a minha incompreensão e ignorância — e, por isso mesmo, a minha inexplicação — ao topar tão singularíssimo caso de transmudamento de inspiração e expressão artística, arrisco-me a dizer de tão espantoso exemplo de metempsicose. Com todas as veras, não sei de nada semelhante ou sequer parecido. Os primeiros contos do estudante de Medicina não estão mal feitos — pelo contrário, são até que muito bem trabalhados, perfeitamente ao jeito do rigorismo gramatical e do estilo abundante e vistoso, ainda em muita moda na época; não resultaram de pueril fantasia, precipitado desejo de aparecer e brilhar, tampouco aceitos a poder de pistolão ou de facilidades irmãs, de igual e feia ordem. Produziu-os, às vésperas de doutorar-se, um moço de vinte e um anos, idade em que não é tão de admirar assim o revelar-se alguém artista, e artista de apurado timbre. Um jovem, mas jovem intelectualmente adulto, respeitado pela assiduidade ao livro, escorado de nada frágil calço humanístico, e abastecido de boa provisão científica — roceiro já acostumado de braço, mesmo para lavourar em culturas estrangeiras. Sua literatura — e, agora, a indagação: — como deu conta de refazê-la assim, primeiro começando por desaprender o aprendido em anos de aturada porfia, para, depois, reiniciar e reconstruir tudo, e de modo totalmente irreconhecível, como se fora labor de outra alma e de outras mãos?

   Não monta a resposta: o incontrastável é que Guimarães Rosa saiu um e voltou outro à ribalta. E o que de princípio fez, durante o entreato, foi trocar de ambiente e de vida, na hora favorável em que se habilitava em Medicina. Meteu na mala o Chernoviz e outros competentes guias da esculápia pau-de-toda-obra, encaixotou os clássicos, dicionários e gramáticas, a tralhazinha de recruta na profissão em que acabara de licenciar-se, o diploma e também o tabuleiro e os trebelhos do xadrez. Largou o emprego no Departamento de Estatística, largou o professor de russo, e partiu de Belo Horizonte para a cidade do interior onde — alguém lho disse — não havia médico. Nem trem de ferro, tampouco estrada de rodagem que prestasse. Mas limpo céu, ares sãos, alegre gente. Itaguara, esse o nome do lugar.

   Hoje, vai-se a Itaguara pelo macio e veloz asfalto da Fernão Dias, que liga a capital mineira a São Paulo. Quem sai de Belo Horizonte, a cerca de duas horas de viagem, pode enxergar bem lá embaixo — isso à mão esquerda e se forçar a vista — ponta-de-rua ou outra da cidadezinha branca, afundada e meio sumida na paisagem de redondos morros. Há coisa de quarenta anos, quando Rosa ali chegou, o caminho era de terra, muito mais comprido, custoso e lerdo, e o lugarejo não passava de distrito — apesar de bem-dotado, com grupo escolar, bonitinha igreja, padre local, e afamada festa na Semana Santa.

   Essa distante fase da vida de João Guimarães Rosa durou até ao meado de 1932, quando do levante constitucionalista de São Paulo. Atendendo à convocação de voluntários para o Corpo de Saúde da Polícia de Minas Gerais, Rosa apresenta-se, serve em várias frentes, e, terminada a revolução, efetiva-se na milícia. Voltou a Itaguara apenas para despachar a mudança: fora destacado, já com divisas de capitão-médico, para integrar a oficialidade do recém-criado 9° Batalhão da Força Pública de Minas Gerais, a instalar-se em Barbacena.

Não há de ser fácil condensar a vida de médico de roça levada por Guimarães Rosa em Itaguara. Não lhe pegou, aí, a tísica intelectual de um lugar pobre de fatos susceptíveis de lhe virem quebrar, vez por outra que fosse, a pachorrenta atoíce do dia-a-dia. As novenas e leilões da Semana Santa eram apenas de ano em ano.. . E a política, a essa a Revolução de 1930 havia posto fim; ah, se pelo menos a beleza de uma eleiçãozínha de arraial, bem tocada a futrica, cacetada e foguete! ... Mas, no caso de Guimarães Rosa, foi esse período o mais proveitoso, sem dúvida, para a sua vocação: o que mais subsidiou, em matéria e forma, a reconceituação, reestruturação e refazimento de sua nova arte literária — essa, sim, original e independente, humosa e robusta, capaz de se definir e afirmar em transcendência e perpetuidade. Sua saleta de atendimento clínico virara consultório e confessionário ao mesmo tempo, que, a par do lamurioso romaneio das mazelas, sempre historiazinha ou outra haveria de render o cliente. As viagens — de infalível a cavalo — às fazendas e corrutelas de sua paróquia médica, aproveitava-as Rosa como rendoso campo de observação: gente, bichos, plantas — um novo-mundo ainda muito mal explorado pela vasqueira e medrosa literatura daquela época, desestudado em sua essência e pormenor. A própria povoação, que opulência de humanidade, quanta malícia e graça no diz-que-diz do comadrio, quanta novidade e variedade de temas haveria o psicólogo de então recolher, e o escritor de amanhã universalizar com sua caprichada pena?! Guimarães Rosa anotava tudo, não só de memória, mas, e principalmente, nas suas famosas cadernetas. Antigos vizinhos e freqüentadores de sua casa — muitos ainda moradores em Itaguara — contam como ficava ele, noite fora, a lidar com seus misteriosos apontamentos, ou a estudar — o que de mais estranho se lhes afigurava — em seus grossos e demorados dicionários. As anotações resultaram em abastado glossário sertanejo, verdadeiro léxico enciclopédico de todo um novo vocabulário e gramática, de uma nova história natural e antropologia, e tudo rigorosamente autêntico, fiel ao visto e ouvido. Não tivesse Guimarães Rosa acumulado esse minucioso e exato pé-de-meia, ser-lhe-ia impossível levar a cabo a estendida e densa obra de arte que foi o seu importantíssimo legado.

   Um pesquisador de gosto, sem preguiça nem pressa, muito irá descobrir, na cidade mineira de Itaguara, de curiosa informação a respeito do que Guimarães Rosa fez e também recolheu em experiência e em aquisição de conhecimentos de vária ordem.

   Atualmente, Itaguara é bem outra. Emancipou-se, passando de distrito a município, calçou-se de liso e limpo paralelepípedo, construiu muita casa nova, erigiu vistosa igreja em centro de jardim - jardim zelado a mão de moça, as moças que tanto ajudam o vigário no pastoreio da criançada local —, fundou mais escolas e seu ginásio noturno, o ai-jesus da cidade. Itaguara de hoje é uma simpatia de terrazinha, e o povo, afetuoso e prestadio, continua sendo do melhor; e duro de envelhecer, e agudo de memória, que são numerosas as pessoas que se recordam, perfeitamente, do seu doutorzinho amável, dia a dia pior da vista, mas risonho sempre, pronto sempre para acudir aos chamados de socorro médico, andasse bom ou andasse mau o tempo, fosse lá a que horas fosse. Porém manhoso, perguntador, especula por demais da conta — essa a voz geral dos informantes —, infalivelmente armado da terrível cadernetinha, a querer saber de tudo, para de tudo aprender e registrar.

   Dessa mania dos apontamentos e do estudo já se falou e refalou; de como saía à cata de cogumelos e caramujos para ele mesmo temperar e comer, seria aqui ociosa, se não inadequada, a referência — o mesmo ocorrendo com respeito à criação de abelhas e de toda espécie de aves de quintal; da prosa na botica em frente e das primeiras lições de xadrez ao padre e ao farmacêutiéo — isso nos curtos momentos de folga que lhe concediam o consultório, as viagens a cavalo e os livros — há de ser, por óbvia, desnecessária a menção. O que de mais substancial e mais estimável convém investigar será a copiosa contribuição que Itaguara ofereceu ao escritor — em assunto, linguagem, em figuras humanas e outras criações da natureza, em rústico cenário e tudo o mais — em resumo e afinal, o complexo de recursos com os quais pode Guimarães Rosa edificar, à sua maneira, um mundo todo seu, o universo de sua ficção personalíssima.

   "Traços Biográficos de Lalino Salãthiel ou A Volta do Marido Pródigo", por ordem o segundo conto de Sagarana, assim Guimarães Rosa titula uma história, cuja principal personagem ele conheceu pessoalmente — o mulatinho descaradíssimo, ágil de andar, sestroso e falante, peão de picareta em trecho de construção da rodovia Belo Horizonte—São Paulo, nas imediações de Itaguara, na ocasião em que o doutorzinho de óculos e comedor de caramujo lá clinicava. Ambiência, tema, e demais figurantes além do vivo Lalino Salãthiel — tudo, também, material ali recolhido. Seu Marra — o bondoso Seu Marrinha da história —, Seu Marra, feitor real, de carne e osso, do grupo de picareteiros a que pertence o maneiroso Lalino ­- nem o nome dele, a condição de fiscal na construção da rodageira, tampouco a paixão por teatrinhos e pantomimas Guimarães Rosa deixou de utilizar. Seu Marrinha, que mora hoje em dia em Belo Horizonte — o nome completo é José Benjamim Marra —, relata como o doutor ia, em horas livres, assistir ao vaivém das carrocinhas de burro do aterro e puxar conversa com os braçais da estrada.

A tentação é muito forte para que se possa a ela resistir; ouçamos Guimarães Rosa:      

   "Nove horas e trinta. Um cincerro tilinta. É um burrinho, que vem sozinho, puxando o carroção. Patas em marcha matemática, andar consciencioso e macio, ele chega, de sobremão."

   "Sarapalha", o terceiro e comovente conto de Sagarana, origina-se de uma visita médica de Guimarães Rosa a um comerciozinho das margens do Pará, rio que nasce nas imediações de Itaguara. Assim é aquarelado, com tristonhas tintas, o moribundo lugarejo:

   "Tapera de arraial. Ali, na beira do rio Pará, deixaram largado um povoado inteiro: três vendinhas, o chalé e o cemitério; e a rua, sozinha e comprida, que agora nem mais é uma estrada, de tanto que o mato a entupiu. Ao redor, bons pastos, boa gente, terra boa para o arroz. E o lugar já esteve nos mapas, muito antes da malária chegar."

   Popularíssimo tipo de Itaguara, engraçado poeta de rua, brigão e permanente glosador da vidinha caiçara do povoado — "Aretino de arraial", como Guimarães Rosa o apelida e imortaliza — reaparece com o literal nome e a veia bocagiana, no belo conto de feitiçaria "São Marcos". Rosa copia-lhe uma das quadras:

 

"Essa história de phonética

eu nunca pude entendê!

É tão feio se assiná

Manuel Baptista sem P!”

 

   Ainda em Sagarana, no conto "Duelo", trágico equívoco, — um desinfeliz, morto a tocaia por causa da grande semelhança com o irmão, esse, sim, a jurada vítima —, fato ocorrido e ainda não esquecido em Itaguara, é o que inspira o escritor na intriga dos motivos, na reinvenção da espera homicida e na bem construída busca do vingador atrás do assassino em fuga, obsessão que termina em imprevisto e emocionante desfecho.

   Basta de referências e transcrições: seriam intermináveis, mesmo que se usasse, por fonte única, o livro de contos Sagarana. Um fato, marcadamente de tragicomédia, merece, todavia, ser aqui lembrado. Foi o súbito aparecimento, em Itaguara, de um pobre louco, esfarrapado, de cabeleira e barba desgrenhadamente crescidas, olhos alucinados, a carregar e a sacudir, aos brados, pesada cruz feita de dois galhos de pau atados a cipó. O fantasma - provavelmente um padre ou ex-seminarista endoidecido, porque temperava de algum latim a imprecação inconsequente - pregava o fim do mundo, invectivando as mulheres e mais gente aterrorada, e chegou a invadir a igreja, investindo com a perigosa cruz e pondo a correr o cura e quem mais se encontrava lá por dentro. Pois bem: o Dr. Rosa não se despregou um instante do profeta maltrapilho — e de caderneta e lápis! - a anotar-lhe a furiosa fala todo o tempo em que ficou a espaventar o povo do arraial, acompanhando-o até bem fora dele, quando a assombração se dispôs a ir anunciar o apocalipse mais ao diante. É em "Recado do Morro", a quarta novela de Corpo de Baile, que reaparece o orate, rebatizado várias vezes pelo escritor: Nomemdômine, ou Nomemdome, ou Santos-Óleos, ou ainda Jubileu... Escreve Guimarães Rosa, em uma das cenas em que entra o desmiolado peregrino:

   "Estafermo mesmo assim, arava o passo, pernas tantas, até cada fim de rua, e retornava, estroso, ardente, cachorro caçado, sete fôlegos. Abria o peito: — “É, a Voz e o Verbo... É a Voz e o Verbo... Arreúnam todos, e me escutem, que o fim-do-mundo está pendurando! Siso, que minha prédica é curta, tenho que muito ir e converter..."

   Alguém que alcança abordar o desatinado e merecer dele atenção e resposta— quem sabe se não o próprio Dr. Rosa, quando o seguia, fascinado, pelas ruas de Itaguara? —escuta o seguinte:

   "— Sua pergunta é do rogo da fé, e não da carne, não, moço. O senhor é homem gentil, tem galardão! Tem galardão... Mas eu sou o zerinho zero, mal-e-mal uma humilde criatura do Senhor: eu nem sou a Voz... Vinde, povo: senvergonhas, pecadores, homens e mulheres, todos. Todos eu amo, vim por vosso serviço, Deus enviou por mim, ele requer o vosso remimento. Dele tenho o praz-me. Olha o aviso: evém o fim do mundo, em fogo, fogo, fogo! O mundo já comegou a se acabar, e vós semprando na safadeza, na goiosa! Contraforma! Contraforma! Olha o enquanto-é-tempo... Vamos, vamos: pra igreja! Todos me acompanhem. Aqui-del-papa! Aqui-del-presidente!" Desabalou de vez, olho na rua a longe, quase correndo, feito pulando redo, tinha de alargar também as pernas - aqueles rolos de pano nos pés dele foiçavam porção de poeira.

   " Corpo de Baile, Grande Sertão: Veredas, Primeiras Estórias e Tutaméia— os livros de Guimarães Rosa que se seguiram a Sagarana - estão povoados de gente assim, a mor parte escolhida no rol de criaturas conhecidas, pessoalmente ou por informação, durante a temporada que passou em seu arruadozinho de medico noviço. Os curiosos de saber de que pele Guimarães Rosa vestiu a inesquecível figura do compadre Quelemém, de Grande Sertão: Veredas - "Quelemém de Góis, da Jijuã, Vereda do Buriti Pardo..." —talvez encontrem resposta em Itaguara. Mas é preciso que se vá a um grotão enfurnado entre morros, lugar conhecido por Sarandi, de muitas fazendas parentes. Uma delas chama-se 0 Mambre — "morada, seio de Abrão", o dono explica. A graça do fazendeiro é Manuel Rodrigues de Carvalho, de todos conhecido por Seu Nequinha. Espírita, estimado e ótimo remedista, foi ele — o próprio é quem diz — quem bastante acompanhou e bastante adjutorou o Dr. Rosa em seus primeiros chamados e aflições médicas. Anda o Nequinha, coitado, é mas é meio perrengue, de cama; tira ânimo e proveito, porém, da forçada permanência no catre, lendo Alan Kardec e o Chico Xavier, afora romances que manda comprar ou lhe levam de presente A Profª Maria Geralda Costa, simpaticíssima, encantadora hospedeira e cicerone de Itaguara — amável, expedita e danada de inteligente — Maria Geralda por-se-á pronta, como de igual há de fazê-lo relativamente ás outras pessoas que se lembram do Dr. João Guimarães Rosa, para acompanhar ao Sarandi e à Fazenda do Mambre os desejosos de conversar, ouvir o repertório, e — por que não fazer render a visita? —tirar também excelente receita e muito bons conselhos com o velho, lido e suave Seu Nequinha.

   0 que se não pode mais, lamentavelmente, é ver a casa onde morou e clinicou o escritor, porque já de muito a desmancharam. Casa de quintal e porão, onde — dizem lá por Itaguara — Rosa hospedava bandos de ciganos que, àquela época, tanto percorriam as cidadezinhas rurais: "sempre gostei de estrangeiro"... — confessa Guimarães Rosa, por boca de Riobaldo, em passo de Grande Sertão: Veredas. O conhecimento que exibe da vida errática e do linguajar cigano - fielmente fixado no conto "Corpo Fechado", em relato autobiográfico do pulha mas artimanhoso Mané Fulô - e mais aqui e ali no restante da obra literária de Guimarães Rosa, deve-o o novelista às pacientes horas passadas na convivência com os "calões" acampados no porão e quintal de casa de Itaguara, aprendendo com eles a gíria arrevesada, as histórias de um viagear aventureiro e sem parada, as tretas no consertar e mercar tachos de cobre, e, especialmente, no pândego passar a perna à caipirada, invencíveis que sempre foram os finórios ciganos em tramas de cavalos e quejandas malas-artes.

   O Capitão-Médico João Guimarães Rosa chegou a Barbacena no dia 3 de abril de 1933. Data de grande festa: todo o povo comparecera à estação da Central do Brasil a assistir ao desembarque do 9° Batalhão de Infantaria da Força Pública de Minas Gerais, que vinha para aquartelar-se em definitivo.

   O frescor do clima, os diversos trens diários da Central do Brasil, a proximidade com o Rio de Janeiro e Belo Horizonte —essas vantagens, facilidades e recursos, faziam de Barbacena, já àquele tempo, uma das mais populosas e adiantadas cidades mineiras. O quartel pouco exigia de Guimarães Rosa — quase que somente a revista médica rotineira, sem mais as dificultosas viagens a cavalo que eram o pão-nosso da clínica em Itaguara, e solenidade ou outra, em dia cívico, quando o escolhiam para orador da corporação — sobrando-lhe prazo para a ocupação a que, desde rapazinho, se vinha dando fervorosamente: o aprendizado de idiomas estrangeiros.

   Escreveu a Chiquiloff — seu antigo professor de Belo Horizonte — pedindo livros e mais material de estudo em língua russa; descobriu e passou a cultivar amizade com famílias alemãs para o treinamento de conversação, e iniciou-se em japonês com um Sr. Numia, floricultor local. O francês, aperfeiçoava-o com o poeta barbacenense Honório Armond, e com o Dr. Doux, presidente do Clube Comercial, ponto de reunião de boa sociedade dada às letras, frequentado por Rosa, que ali fora encontrar, além de inteligentes serões, alguns parceiros de xadrez.

   A exata notícia que se tem de uma próxima e total mudança de vida — não se sabe se plano secreto e pacientemente preparado, se fortuita inspiração — transmite-a Guimarães Rosa a um ex-companheiro de pensão e de Faculdade ficado em Belo Horizonte — um quase-irmão com quem carteia assíduo e muito íntimo — o Dr. Pedro Moreira Barbosa. Em bilhete dirigido a esse amigo diletíssimo, datado de 10 de março de 1934 — menos de um ano, portanto, de permanência no quartel de Barbacena — Rosa prepara-lhe o espírito para séria revelação. Escreve:

   "Como nunca é bom ficar-se estacionário, já concebi novos planos, desta vez bem mais grandiosos que os de costume, e que surpreenderão muito a você, quando lhes revelar. Por enquanto, só digo que pretendo deslocar-me, muito brevemente, para o Rio de Janeiro. .."

   Dez dias depois, a 20 de março, em agora longa e pormenorizada carta:

   “ . .. se você puder, procure obter para mim, ou com os empregados da Faculdade de Direito ou com algum aluno da mesma, a coleção ou série completa dos Pontos de Direito Internacional Público, síntese das aulas do Prof. Alberto Deodato, prelecionadas para o 3° ano..."

   E, mais adiante, abre o coração:

   "Lembro-me de ter dito a você, parece-me que em, Itaguara, que me achava decepcionado com a realidade da Medicina, sentindo até algum arrependimento por não ter estudado Direito, carreira que então já me aparecia como mais compatível com o meu temperamento e com as minhas fracas aptidões ..."